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  • Nina Russo

Uma vida em minhas mãos

Logo quando descobri minha gravidez e compartilhei com o pai, a primeira reação dele sem pensar foi " eu não quero, você vai tirar".

Mas não é essa a questão que vamos falar aqui.




Na minha cabeça, eu estava gravida, eu não queria estar nessa condição, o pai não estava querendo e eu já havia passado por uma rejeição com os meus pais na outra gravidez.


Chorei muito, pensei muito, tive depressão por estar passando por isso e comecei a falar com amigas sobre o assunto.


Engraçado que quando falamos de aborto, o Brasil se choca porque aqui é crime, mas tantas coisas são ilegais no Brasil e as pessoas acham normal, remédios para emagrecer, drogas, documentos falso quando se é menor de idade, enfim, coisas que são "normais", mas que também são contra a lei.




Durante os três primeiro meses mais ou menos, ficavam martelando mil coisas na minha cabeça, eu não suportava falar sobre a minha gravidez, eu escondia, eu vivia chorando, eu não via solução para aquele momento infernal.


Me nutri de informações, como eu disse, eu comecei a conversar com amigas e também ler muito sobre muita coisa.


Busquei mães jovens para me fortalecer, mães que foram mães aos 16, 17 anos, pessoas que eu conheço mesmo, e comecei a pensar " - Poxa, eu tenho 27 anos, formada, pós graduada, tenho minha casa, trabalho, realmente não é o fim do mundo, talvez pudesse ser se eu estivesse na escola, ou no meio da faculdade, mas não é, tenho quase trinta, é uma boa idade para ser mãe..."


Me nutria desse tipo de histórias para me fortalecer, já que eu não ia "perder minha vida", eu estava realmente tomada pelos hormônios e exagerava com tudo.


Meu irmão sem duvidas sempre foi meu melhor amigo nos momentos mais difíceis da minha vida, a gente briga muito, temos a cabeça totalmente diferente, mas ele foi pai com 22 anos e hoje tem 30, ele acha ótimo ter uma filha de 8 anos, e sempre me falava " Ká, você vai ver, é a melhor coisa do mundo, você vai ser uma mãe do caralho ( com o perdão da palavra, rs), você está em uma idade ótima, e ó, você vai ficar ainda mais linda, vai virar mulher de verdade".




Quando a gente esta perdida é bom ouvir esse tipo de coisa, é bom ter gente do seu lado, não te julgando e sim te ajudando.


Eu confesso que meu namoro acabou na outra gravidez por depressão também, por tudo que eu senti naquele momento, que não foi nada fácil, e de repente me vi nessa situação, meio que sem apoio, ai comecei a pensar " ai meu Deus, eu vou ser uma mãe solteira, vou ser aquela que quando sair com alguém vai ter um filho, eu não acredito, eu não mereço isso".


Vocês não tem ideia da quantidade de coisas que se passaram na minha cabeça, eu falo que o tempo todo tive altos e baixos, e sem duvidas ainda vou ter alguns pela frente.



Mas vamos lá, da mesma forma que eu buscava esse tipo de informação para me fortalecer também conversava com amigas que já haviam abortado, amigas que já haviam buscado esse tipo de "serviço" e desistido, amigas de todos os tipos, as que nunca tinham feito, mas sabiam ondem fazer, sabiam valores, conheciam os médicos e tudo mais, amigas que quando eu contava que estava gravida, logo falavam " mas você vai tirar né ?", outras que falavam " oi ? gravida? amiga do céu, eu no seu lugar iria tirar, você já contou para alguém, se quiser vou com você, não estraga a sua vida", falavam e falavam sem parar, nem ao menos me davam espaço para eu pensar.


Cheguei a ter essa conversa com a minha mãe, lembro como se fosse hoje, eu esperei ficar sozinha na sala com ela e falei que queria ter uma conversa séria.



"Pensei muito a respeito, fui buscar informação, e se você não me ajudar eu faço sozinha, eu não quero estragar a minha vida, eu não quero ser mãe, se dependesse de mim você nunca seria avó, depois dessa eu juro que cortaria meu útero fora".


Barbaridades sem tamanho,minha mãe chorou, disse que era contra, mas que se eu fosse fazer de qualquer jeito ela teria que falar com o meu pai, já que o valor era bem alto.


Segundo minha amiga, uma média de R$8.000,00 caso você tenha curiosidade, e eu ainda jogava na cara da minha mãe, o que é esse valor perto do gasto que "essa criança" vai me dar ?"



Eu realmente fui muito dura nessa situação, fui irracional, fui "forte", fui "corajosa", mas no fundo, tudo o que eu tinha era medo, medo do novo, medo daquela situação, medo de ver a minha vida transformada.


Quando ouvi lá no começo " você vai tirar", eu chorei, briguei e achei um absurdo aquilo, mas depois me sentindo sozinha comecei a levar em consideração, não por ele obviamente, mas por mim, afinal, independente do que falem, filho é sim da mãe, é o nosso corpo que muda, é a gente que passa mal, é a gente que amamenta, enfim, pai tem o seu papel, sem duvidas, mas mãe é mãe.


Vivi em uma luta interna durantes meses, razão, emoção, ter minha vida de "volta" e cometer um crime, viver pra sempre com aquela ideia na cabeça de como teria sido, me sentia covarde e ao mesmo tempo me sentia dona do meu nariz.


Eu nunca havia parado para pensar sobre " aborto" , sempre tinha a ideia muito misturada na minha cabeça, pensava que, SIM, é uma vida e você vai estar matando alguém, e ao mesmo tempo pensava que enquanto aquele feto era algo "orgânico", não tinha formato de nenem, ele não era "nada".


É e sempre será um assunto muito delicado, eu quis abrir isso com vocês, porque eu gosto de expor o que senti, não gosto de florear a maternidade.


De uma coisa eu sei, independente de qualquer coisa, a decisão é da MÃE, homem, pai ou qualquer outra pessoa NÃO tem o poder de escolher por você, de te dar um remédio abortivo, assim como a "pilula do dia seguinte" também sou um pouco contra essa bomba hormonal, não acho que ninguém tem que impor isso.


Escuto sempre amigas minhas falando "nossa já tomei umas cinco esse ano", o cara vai lá simplesmente goza e no dia seguinte compra a pilula e pronto, garantido ?, é responsabilidade dos dois, e se caso aconteça o sexo sem segurança e venha ai uma gravidez indesejada ( que é melhor que uma doença) cabe aos dois a responsabilidade, mas cabe a mãe a escolha de ter ou não ter essa criança, o corpo é dela, e se o homem não quer assumir, existe justiça e outros meios para que ele assuma o seu papel de qualquer jeito.



Sei que é um assunto longo e polêmico, pensei mil vezes antes de escrever isso aqui, mas eu acho importante dividir isso, não pensem que não passou pela minha cabeça, passou sim, e muito!


Nunca cheguei a ir em nenhum lugar, nem sei onde fica, só tive essa informação com amigas, os dias foram passando e vocês bem sabem qual foi a minha escolha né ?


Assumir ! assumir a minha responsabilidade, ter coragem para ser mãe e seguir em frente.


Não pensem que foi uma escolha obvia, não pensem que foi uma escolha fácil, porque tudo que a minha gravidez não foi, foi ser fácil.


Depois que aceitei esse papel, percebi que a minha unica preocupação agora seria, como trazer ao mundo uma tela em branco e educar essa menina com valores,princípios e educação.


Se você já se viu nessa situação, se você conhece alguém que esteja passando por isso, compreenda o outro, não julgue, e se você é a gravida que está pensando em tudo isso, se perdoe!


Perdoar é um ato divino e é algo de você com você mesma.


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© 2019 por nina russo