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  • Nina Russo

Essa vida é louca !



Últimos dias de gravidez, e ai começa literalmente um filme na cabeça.


Confesso que está bem difícil de cair da ficha que em poucos dias a Liz vai estar fora do panço.


Já falei algumas vezes que a minha gravidez não foi planejada, nem desejada, ela foi literalmente "aceitada".


Comecei a pensar em tanta coisa esses dias que minha cabeça está dando um nó literalmente, e como escrever é o que me ajuda, aqui estou eu.


Logo quando descobri a gravidez eu surtei, pensei mil e uma coisas, entre elas de que eu não gostaria de estar nessa condição, de como eu iria fazer, de como iria ser, de como eu iria lidar, como iriam me julgar, como meu corpo ia mudar, o que eu iria ter que abrir mão para ser mãe, que sonhos eu teria que deixar de lado, entre tantas milhões de coisas que literalmente só quem passa vai entender.


Depois de muito sofrer e literalmente aceitar que eu seria mãe, comecei e pensar em como educar, onde ela iria estudar, o que eu gostaria de dar pra ela, quais oportunidades, quais valores, como será a educação e por ai vai.


Livros de gestação e educação infantil tomaram conta da minha cabeceira, conteúdo de gravida virou quase que o único assunto que me interessei nesse tempo, li textos, vi videos, conversei com mães, acompanhei gravidas e comecei a me preparar psicologicamente para esse papel.


Como a gente muda, meu Deus, a Liz nem nasceu e eu já virei outra pessoa, que loucura!


Durante os nove meses eu tive que tomar muitas decisões difíceis, tive muitos momentos ruins, e muitos bons, como sempre digo, gestação é de fato uma montanha russa de emoções e não acho que sou a única que pensa assim, independente da forma como esse nenem veio, é tudo uma questão hormonal, se na TPM a gente fica louca, imagina gerando um serzinho ?


Ao longo dos meses tive que falar e enfrentar muitos medos, e um deles é um fato de "dar a luz", não tenho certeza se já comentei, mas tenho três grandes medos : Hospital, Cirurgia e Parto.


Para resumir esses medos, porque eu sei a fonte de cada um deles e já falei muito sobre com a minha psicologa, o medo de hospital veio quando eu era bem pequena e minha bisavó estava internada, eu deveria ter uns quatro ou cinco anos, ela queria porque queria me ver, com a autorização do médico deixaram com que eu entrasse no quarto, lembro de ver pela primeira vez alguém em uma cama de hospital, lembro dos cabelinhos brancos dela, deitadinha, cheia de acessos e fios, entrei, dei um beijo e um abraço dela, e depois nunca mais eu a vi, ela se foi pouco depois.


Na minha cabeça de criança, hospital se tornou um lugar que as pessoas vão para morrer, e por mais que o tempo tenha passado, até hoje a ideia de ficar em um hospital não me agrada em nada.


O medo de cirurgia veio mais ou menos da mesma forma, meu pai foi fazer uma cirurgia de hérnia, eu não podia entrar no quarto por conta da idade, demos um jeito, eu vi ele (porque na minha cabeça ele estava no hospital para morrer), e depois que ele teve alta e foi para casa, a cirurgia estourou, eu vi aquela coisa pulsando para fora, sangue e meu pai voltando para refazer a cirurgia, enfim, PANICO!


Já o medo de parto talvez tenha sido o pior, lembro perfeitamente, eu estava aprendendo sobre sexo na aula de ciências da terceira série ( pra gente ver como é importante se preocupar com o conteúdo de uma criança vê) simplesmente, na aula começou a passar um video de um parto natural domiciliar, e quem estava filmando era o pai, imaginem como era esse video nos anos 90? Pois é, desnecessário, lembro de sair da aula chocada e dizer naquele dia "nunca vou ser mãe", e isso se estendeu até hoje.


Bom, com o passar dos meses, eu nem tocava no assunto parto, não queria ouvir, não queria ler, não queria que me perguntassem, e o pior é que TODO MUNDO parece se preocupar muito em "como vai ser o parto", já que foi uma das perguntas recordes de tive que responder, será que só isso importa ? Não existe nenhuma pergunta mais interessante para fazer ?


Claramente, eu sei que sou uma pessoa meio chatinha em relação a " se colocar no lugar do outro", "pensar antes de questionar sobre algo", enfim, minha educação me fez ser uma pessoa muito pensativa quando se trata de certos assuntos, e muito cautelosa na hora de falar sobre algum assunto delicado, mas enfim, PARTO, como as pessoas gostam de falar e perguntar sobre, e desde o início a minha resposta era a mesma " a Liz vai vir como ela quiser", achei a resposta mais leve de responder, sem dizer muita coisa enquanto eu não sabia de nada.


Acredito que lá pro quinto/sexto mês, já nem lembro mais, foi quando comecei a querer saber sobre o assunto, comecei a perguntar detalhes do parto das minhas amigas, comecei a ler relatos de parto, comecei a tirar duvidas com a minha médica, e com 31 semanas, ainda com o assunto meio "em estado de estudo", fui conhecer maternidades, e ai eu fiquei simplesmente CHOCADA em saber sobre "agendamento de parto".


COMO ASSIM AGENDAMENTO DE PARTO ? A GALERA ACHA QUE É TIPO JANTAR DE NEGÓCIOS , TIRAR A CRIANÇA ASSIM ? SEM ELA QUERER?


SURTEIIII!!!!!!


Simplesmente surtei, porque na minha cabeça, por mais que minha ex cunhada tenha agendado, eu nem tinha me ligado, e pra mim a mulher que escolhia cesárea ou parto vaginal, escolhia meio que na hora que o nenem resolveu escolher nascer, e não assim, como se fosse colocar um silicone.


Nesse momento a minha frase de " A Liz vai vir como ela quiser" fez ainda mais sentido, e assim seguimos o plano, com muito medo, achando todos os dias que a Liz iria nascer, todos os dias achando "será que é hoje ?".


Em nove meses eu passei de uma menina ( nem consigo falar mulher) solteira, que morava sozinha, fazia o que queria, viajava, tinha planos, LIBERDADE, para alguém que descobriu que estava esperando um nenem, que se desesperou, que não quis estar nesse papel, que sofreu, chorou, entrou em depressão, depois passou por aceitação, depois teve que tomar decisões difíceis, como abrir mão de morar sozinha para voltar para a casa dos pais, por momentos de incapacidade por conta das dores e afins, por escolhas difíceis demais para falar aqui, por muito choro, muito drama, muita solidão, muitos momentos sozinha, por pessoas se afastando, por aceitação, força, poder, empoderamento, por momentos de " sou ser uma mãe foda", para outros " não sei se sou capaz", angustia, tristeza, alegria, vontade de ignorar tudo, vontade de falar sobre tudo, vontade de se enfiar em uma cama e nunca mais sair, vontade de exibir o panço por ai, ishh, mil e uma coisas, aconteceu muita e muita coisa até hoje.


E agora qual é o meu momento? O final, o momento pré parto, pré nascimento da Liz e de mim.


Passei a gestação inteira pensando que Liz iria ser pré matura, chorei rios de lagrimas pensando nessa ideia, isso porque ela sempre foi um nenem grande, até que finalmente se igualou com a média, eu tive depressão na gravidez, eu tive anemia, eu tive uma série de fatores que me levaram a acreditar que isso iria acontecer.


O ultimo mês, sem dúvidas é O PIOR, mas eu estava muito feliz em ter chegado no NONO MÊS, passei muitos dias indo ao hospital, tendo contrações de treinamento, dores intermináveis, muitas delas regadas a choro e colo de mãe, noites mal dormidas, eu simplesmente não encontrava ou melhor, não encontro posição que consiga ficar, dor na virilha, dificuldade para respirar, o peso da barriga é de fato um fardo, enfim, muito incomodo.


Dia CINCO de outubro, eu estava certa que a Liz iria nascer, acordei pouco antes das 6h da manhã chorando de cólica, tenho fortes dores de contração de treinamento, minha barriga estava quadrada, eu chorava, não conseguia falar, não conseguia me mexer, sentia fortes pontadas nas partes baixas e pensei "é hoje", mesmo assim eu sabia que não estava entrando em trabalho de parto porque não tinha contrações ritmadas, então, tomei um remédio e voltei a dormir.


Mais tarde quando acordei, fui almoçar com a minha familia, ainda me sentindo muito estranha e achando que ia ser mesmo aquele dia, senti uma forte pontada enquanto ia para cozinha, agarrei o meu pai, minha vista escureceu e comecei a chorar de novo, depois de alguns segundos voltei a enxergar e falei "preciso comer", acho que pode ser pressão.


Almocei, e logo na sequência me senti mal novamente, meu rosto começou a formigar, me senti meio lenta, mas ao mesmo tempo estava com palpitações, meu pai mediu minha pressão e ela estava um pouco alta, voltei para a cama e segui assim o resto do dia.


A noite foi chegando e meu mal estar não passava, acabei indo pro hospital, e mesmo sem contrações eu fiquei pensando "será que é hoje?", cheguei, fiz exames e o médico que me atendeu fez o exame de toque e disse "o colo do útero esta fechado, inclusive a Liz nem encaixada está!".


COMO ASSIM NEM ENCAIXADA ESTÁ? Fiquei em uma mistura de como assim ? com ufaa ! ai ele me explicou que por mais que ela estivesse pélvica ( viradinha de cabeça pra baixo) ela ainda não estava encaixada com a cabecinha no meu osso, estava solta, nadando pela pança, no dia seguinte eu tinha médica, ela refez o exame e pela primeira vez ela também havia dito a mesma coisa, ai ela me tranquilizou dizendo que ela poderia encaixar naquela semana e que na próxima semana era pra gente se ver novamente.


Durante a semana senti a Liz mais tranquila, os dias foram passando e eu percebi que ela estava bem quietinha, que não havia me dado trabalho algum, então eu logo pensei "ENCAIXOU", certeza, porque se ela esta presinha é mais difícil de se mexer mesmo, que maravilhoso !!!


Fui na minha consulta toda animada, e quando minha médica foi me examinar... NADA!

Liz não encaixou, está solta, solo do útero fechado, sem dilatação, e uma frase " Karina, vamos conversar".


QUARENTA SEMANAS, é o prazo que ela considera ideal, 41/42 é considerado "termo tardio", é comum nascer nesse período, porém dependendo, o nenem pode estar sofrendo, obviamente, eu como futura mamãe, não quero fazer a Liz sofrer e nem sou "Deus" para ficar segurando ela na barriga.


Minha médica me deixou bem a vontade em relação a escolha, eu me explicou os riscos, me explicou tudo bonitinho e com lagrimas no rosto eu acabei aceitando o fato de que apesar de tudo a Liz não estava muito afim de nascer, ou melhor de sair por onde "naturalmente" ela deveria, muito provavelmente a cabecinha dela é maior do que o meu espaço, palavras da minha médica, e eu simplesmente resolvi confiar.


Por mais que eu tenha lido muito sobre o assunto, por mais que eu entenda que eu poderia esperar sim, eu não quero ser responsável, ou melhor IRRESPONSÁVEL de escolher manter a Liz na barriga, se por algum motivo minha médica quis me dizer isso para eu escolher fazer cesárea e ela conseguir se organizar ao invés de ficar alerta esperando minha bolsa estourar, é uma escolha dela.


Eu chorei, pensei, avaliei e decidi que não iria ficar com esse peso na cabeça, que eu simplesmente iria aceitar e ponto.


Acabamos marcando a cesárea (coisa que eu não queria) para domingo, Liz vai nascer dia 20 de outubro, estou apavorada e inquieta, estou me sentindo meio triste, porque depois de tantas mudanças que essa gravidez me trouxe, o fim dela vai ser de um jeito que eu não queria, mas ao mesmo tempo penso " começou de uma forma inesperada, por qual motivo ela terminaria de forma esperada?", obviamente que o que importa é a Liz vir com saúde, o principal é isso, não vou ser menos mãe por ter agendado o parto, apesar de achar um negócio extremamente bizarro e estranho, é do jeito que é e ponto.


Esse texto todo é pra mostrar de certa forma que a gente não consegue mandar em nada, que por mais que a gente se prepare para algo, quem escolhe é a vida, a gente é apenas uma peça nesse jogo louco.


Que essa nenem venha para iluminar os meus dias e me desafiar a ser uma mulher de verdade.


Porque menina eu deixei de ser quando descobri a gravidez e comecei a aceitar dia após dia essa condição de mãe, porque mãe é ser de fato mulher, é se doar, é viver para sempre pensando em um serzinho que você gerou, antes disso eu era sim uma menina, com responsabilidades, sonhos e idade, mas mesmo assim um menina.

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© 2019 por nina russo